Espiritualidade

Por Dom José Edson Santana Oliveira.
Fundador do Instituto Missionário Servos do Senhor

 
Para ser franco, não gosto do termo espiritualidade. Parece que tem uma certa conotação com o que São Paulo falava na carta aos Romanos: “vida segundo o espírito”. Então, espiritualidade seria vida segundo o espírito. E nós teríamos como que dois departamentos: a vida dura que vivemos – trabalho, agitação, relacionamentos humanos e, de outro lado, temos também a vida de fé: precisamos orar, refletir, contemplar, alimentar o espírito. Somos marcados também por obrigações religiosas, das quais não podemos fugir. Se fugirmos, pecamos…  Sempre aprendemos ver a oração como uma obrigação, mais do que como uma necessidade da própria vida. Então, a espiritualidade nos coloca na conflitividade de uma dicotomia: matéria e espírito. A “fuga mundi” sempre esteve na motivação de fundo da Vida Religiosa. O mundo só atrapalha… Para se santificar, ser perfeito, é preciso se afastar do mundo.. quem está na vida de santidade são aqueles que fogem do mundo…
Não podemos ter este conceito de espiritualidade. Espiritualidade não é a nossa vida interior. Se nós somos comprometidos e nos pautamos conforme a fé, a nossa espiritualidade é a totalidade da nossa vida. Não somos espirituais só quando rezamos, ma também quando trabalhamos e andamos por aí. A nossa espiritualidade não é apenas algo que fazemos, mas a totalidade do que somos, como gente, como cristãos, como religiosos, como Servitanos.
Vou tentar refletir um pouco com vocês sobre a nossa espiritualidade Servitana, herdeiros das espiritualidades dominicana e franciscana. Não apenas sobre a nossa vida de oração e contemplação, mas sobre o nosso ser Servitano. Como estamos sendo Servitanos, não apenas na nossa pastoral ou na liturgia, mas no nosso jeito de ser, de viver, de agir (acolher), de pregar, de assumir a nossa missão. Ficamos angustiados quando perguntamos: qual a nossa missão hoje? Eu diria que a nossa angústia cairia totalmente se, em todo o nosso ser e agir fossemos profundamente Servitanos. Encontraríamos o nosso lugar na evangelização e na vida e ação da Igreja. Pelos frutos conhecereis a árvore, disse Jesus. Por aquilo que transpiramos e fazemos, devemos ser vistos como Missionários Servos do Senhor (servitanos), dentro da missão que temos pelo nosso carisma de origem. Somos Servitanos por carisma. E herdeiros da espiritualidade de São Domingos de Gusmão, devemos dizer: não somos pregadores só quando estamos no púlpito, mas em toda a nossa vida e ação. Acho sumamente positivo quando conversamos com alguém e concluímos: este é um Capuchinho!, – é o seu jeito de ser, a sua marca, a sua espiritualidade.
O que então é a espiritualidade dominicana? Da qual somos herdeiros! Toda espiritualidade é mais do que discurso. “(…) é a vida com o Espírito de Jesus, na forma que Domingos viveu”.
A vida de Domingos é a fonte e a motivação da espiritualidade dos dominicanos. A sua história, a sua vida – não livros, pois nunca os escreveu – é o primeiro capítulo da espiritualidade dominicana. A vida de São Domingos foi o pano de fundo da espiritualidade da família dominicana naquela época, através dos séculos da nossa história e da espiritualidade dominicana hoje. A história dominicana continua aberta: cada geração dominicana, cada comunidade, cada irmão e cada irmã continuam escrevendo novos capítulos desta espiritualidade, por insignificantes que sejam. E, se novos capítulos não continuam sendo escritos, é porque estamos perdendo, ou já perdemos a fidelidade às nossas fontes e o espírito de Domingos; estamos perdendo o nosso carisma. Se a nossa espiritualidade tiver perdido a dinâmica e se tornar uma ostra incrustada na pedra é porque estamos perdendo, ou já perdemos o profetismo das nossas origens, estamos perdendo o jeito e estamos deixando de ser ‘dominicanos’. Só o seremos se o espírito de Domingos estiver em nós.
Não é possível definir a espiritualidade dominicana, ela é a encarnação do carisma de Domingos em nós, atualizando-o de modo criativo em cada circunstância e em cada momento da história. É viver o nosso presente de modo profético, ao estilo de Domingos. Ninguém deve apresentar a própria experiência como norma definitiva de espiritualidade dominicana. É uma tarefa corporativa e complexa, compromisso comum e da família, não de um ou de outro dominicano. “O discurso que ele fez não é dele, é nosso. Nós também somos responsáveis pelo que ele disse”.
Sobretudo é importante se convencer que a espiritualidade dominicana não é um compartimento isolado da vida. Não se reduz a momentos de oração ou de celebração litúrgica, mas abarca a totalidade da vida e missão. É toda a vida vivida com o Espírito de Jesus conforme o estilo de Domingos.
A Constituição Fundamental afirma: “E, visto que nos fazemos partícipes da missão dos Apóstolos, imitamos também a sua vida segundo o modo idealizado por São Domingos, mantendo-nos unânimes na vida comum, fiéis à profissão dos Conselhos evangélicos, fervorosos na celebração da Liturgia, principalmente da Eucaristia e do Ofício Divino, na oração, no estudo, (fé e razão que leva à verdade) perseverantes na observância regular. (…) Estes elementos, solidamente ligados entre si, harmoniosamente equilibrados e apoiados uns aos outros, constituem em síntese, a vida própria da Ordem; uma vida apostólica em sentido pleno, na qual a pregação e o ensino devem redundar na abundância da contemplação” (LCO, IV). Poderíamos então dizer que a pregação e o ensino levam à contemplação e a contemplação leva à pregação e ao ensino.
Felicíssimo Martinez insiste que a espiritualidade de Domingos é uma espiritualidade de encarnação. Uma espiritualidade que não é consequência de fuga do mundo, mas da sua encarnação e inserção no mundo. Domingos penetra e se aprofunda nesta espiritualidade à medida que penetra e se aprofunda no contato com a realidade – no contato, no conhecimento e na compaixão para com os sofredores. O contato com os homens e as mulheres crucificados é para Domingos o caminho para se mergulhar na contemplação do Cristo crucificado.  Crucificados são para Domingos os pobres de Palência, os hereges do sul da França, os pagãos das Marcas, os escravos da sociedade feudal, os pecadores, todos os prostrados em qualquer tipo de sofrimento. Domingos é todo compaixão, aqui está a sua espiritualidade. (Esta compaixão é traduzida para nós como acolhimento).
Num momento que a Vida Religiosa era marcada pela fuga do mundo e isolamento nos mosteiros, Domingos, Francisco e as demais Ordens Mendicantes surgem com novo conceito de consagração e espiritualidade: a encarnação e a inserção no mundo como fermento novo. Podemos então dizer que nossa espiritualidade só é dominicana se for encarnada. Numa hora em que o Bispo era o pregoeiro oficial do Evangelho, Domingos, em consequência da sua inserção na realidade, é tomado por uma mística nova: a mística da Palavra. A Palavra não pode ficar fechada nos livros, mas deve chegar ao povo. Daí o carisma que Domingos deixou, o carisma da pregação. Mas pregação qualificada. Trata-se de uma pregação entendida mais como carisma do que como simples tarefa ou função a desempenhar. Pregar não é simplesmente falar.
Humberto de Romans, diz: “Não é a mesma coisa pregar e fazer sermão”. Fazer sermão é uma atividade que pode ser levada a cabo até por quem não crê. Basta um pouco de erudição religiosa e alguns dotes elementares de orador sacro e qualquer pessoa pode fazer sermões. Pregar é outra coisa. Só pode pregar aquele que tem o carisma da pregação, que é o carisma da experiência de Deus, o carisma da vida no Espírito. Só o pode fazer aquele que está profundamente imbuído na espiritualidade cristã. O carisma da pregação é uma forma de espiritualidade, e é isto que Domingos nos deixou. Pregar para nós é consequência do nosso ser. Pregar não é nada de profissional ou mesmo de ação pastoral, é um modo de seguimento de Cristo à maneira de Domingos. São Paulo dizia: “ai de mim se eu não evangelizar”. Creio que também nós poderíamos dizer: ai de nós de não pregarmos. Mas pregar no estilo de Domingos, que todos nós conhecemos. (Vivendo a Verdade).
Mas a pregação não é monopólio da Ordem, nem os carismas das Ordens e Congregações as reduzem a uma única ótica e única ação. O carisma da pregação é um carisma universal da Igreja e essencial em toda experiência cristã. Paulo VI deixou muito claro na “Evangelii Nuntiandi” que a evangelização é parte da vocação primeira e da natureza íntima da Igreja.